sonhos aos quarenta e cinco ?






Cara Flavia,
Irei começar a carta logo te confessando que nunca refleti em uma vida aos quarenta e cinco anos, pois quando se tem quinze anos à vida parece que acaba aos trinta.
O que é um engano. Espero que concorde comigo.
Na verdade espero muita coisa de você, se não acredita em mim te recomendo ler os meus queridos trilhões de diários feitos com exagerados sentimentos de uma adolescente incompreendida.
Mas sei que vai me compreender, porque eu também faço parte de você, sim ainda faço. Te garanto que se me procurar vai encontrar.
Em falar em esperar, não me digas que esperou para realizar o sonho. Aquele sonho que nos roubara noites mal dormidas sonhando acordada, que nos fizera inventar histórias complexas que sabíamos que nunca iria se realizar exatamente naquele contexto absurdo. Mas o prazer de pensar já era o suficiente.
Me diga, viajastes o mundo como havia me prometido?
Se a resposta for não, peça desculpa a menina que tu decepcionaste.
Entretanto se a resposta for sim, lhe digo que estou ansiosa para ler os diários de viagens. Quero que me mostre à desnecessidade das selfies quando se tem a memória como aliada.
Que me declame os sentimentos que viveram nas escritas das folhas molhadas pela chuva inesperada de Paris.
Quero que me fale de como é bom ser forasteiro e de como odeia ser turista.
Que transmita sensações diversas ao voltar para casa transbordando cultura.
 É isto que espero de ti, saber os valores dessas viagens e sentir na pele o sabor da sabedoria, não aquela sabedoria de decorar formulas de baskara ou uma equação química difícil, mas a sabedoria de viver cada instante como se fosse único e perceber que o simples e diferente é mais bonito.
Sei que não precisa viajar o mundo para entender isso ou se autoconhecer, porém sinto essa necessidade de me desconstruir e  reinventar-me a cada carimbo do passaporte.
Penso que só assim irei realmente descobrir quem somos.
Há pessoas que nascem com raízes e outras com asas.
Tem aquelas que irá ser felizes morando no mesmo bairro enquanto cursam uma faculdade local, e ha outras, como nós, que nascem com asas, prontas para dizer um adeus temporário à família e viver um "oi" consigo mesmo. Entrando de cabeça em uma exploração do próprio eu.
 Torço para que não esteja me achando sonhadora ao te escrever isso.
A última coisa que quero é te fazer rir dos teus sonhos mais incessantes.
Mesmo que você não vá pegar o próximo vôo para Austrália depois de ler esta carta, quero que saiba que foi isso que sonhou durante sua juventude. Engraçado, nunca soube direito que profissão escolher no ensino médio, mas sempre teve a certeza de querer dar a volta ao mundo, sem desculpas sobre dificuldades futuras, sem gritar aos quatro cantos.  A gente só sabia e gostava de saber.
Gostávamos, pois aprendemos que não vale desistir de um sonho, porque alguma pessoa importante não o achou tão incrível assim.
Nós aprendemos isso cedo, muitas vezes de baixo de porradas da vida, admito. E sempre entendi isto como uma ajuda divina para todos os milímetros de passos que irei dar. Não tenho medo de errar, de me arriscar, tenho medo de não aprender com os meus erros. Espero que ainda me sobre um pouco disso aos quarenta e cinco anos.
Você mais do que ninguém entende minhas dores e eu compreendo que é complicado quando se é uma profissional, mãe, avó e tudo o que uma mulher pode ser. Fica mais difícil manter uma parte minha dentro de ti. Entendo. Escrevo esta Carta no dia internacional da Mulher para te lembrar que independente de sonhos realizados, das inseguranças com o corpo, do medo das rugas. Quero que se olhe no espelho e diga que se ama, melhor, quero que grite! Grite um eu te amo pelo meu eu do passado, para meu eu do presente e para meu eu de hoje.

                       Um abraço apertado
                                                   Flavia winchester

             
                            Cidade das Conquistas, 08 de março de 2016                            


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